Mas amar as coisas não é ser caso perdido, Ana.
4 days ago
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A primeira vez que eu vi o mar, era uma concha.
Colocava aquela coisa feita dum quase osso só que frágil e um barulhão enorme de onda batendo na areia ficava chiando por um tempo no ouvido da gente.
Na parede da sala da casa da minha avó tinha o mar pintado.
Ficava olhando os tantos tons de azul e quase que sentindo na boca o gosto salgado do mar. Imaginava o mar comprido, o mar imenso; cheio de umas ondas enormes, que vinham engolir as gentes espalhadas pela orla.
Tinha medo do mar do que nunca vi. Medo das ondas serem mesmo grandes demais; medo das gentes sentadas na areia; medo dos bichos tantos que povoam o mar. Medo que meu medo me impedisse de apreciá-lo em sua grandeza.
Mas, por algum motivo bobo, sentia que era meu o mar.
E por isso queria descobri-lo. Por isso precisava busca-lo. E por isso, mantinha sempre por perto uma concha e uma fotografia do mar.
Sabe-se lá porque, me sentia mar. Eu era mar.
*
Não chove em São Paulo. São dias de insuportável calor em que o tempo, vezenquando, esquece-se de passar. A água já se foi, José, e o que floresce em nós é medo e sede. Uma agonia tamanha de imaginar se nossos dejetos (sim, a nossa merda que boia pelos Tietês afora) hão mesmo de ir pelos canos sabe-se-lá pra onde, ou se teremos que encará-los por algum tempo antes de decidir o que é o melhor a ser feito.
Era um desses dias quentes de Outubro em que a pressa conduz mais que tudo. E foi então que no meio da rua, surgiu um menino problema, trazido a pontapés. E do menino problema, brotou o mar.
Não sabia que mar podia ser feito de tanta coisa. Fiquei observando o menino, imaginando do que era feito aquele mar. Talvez ódio, talvez medo, vergonha. Talvez fosse pura necessidade humana de fazer-se mar.
Não chove em São Paulo. Mas dos olhos reticentes e minguados do menino pequeno e sujo, de repente ali destituído de sua missão marginal: brotava água.
Era um menino-mar, com pés de terra e sangue brotando dos lábios.
Tentei me fazer ódio, sentir medo. Mas aquele mar não era uma concha. Era feito duma pequena imensidão. E parecia ser muito mais complexo que água e sal. O menino problema era também vida, vida tamanha, capaz até de fazer florescer o mar.
E talvez por ódio, talvez por medo, por vergonha. Talvez por pura necessidade humana: também de mim brotou o mar.
Sim, Drummond, o Mundo, o Grande Mundo, não pesa mais que as mãos de uma criança. E, apesar de tudo, acredito que se o menino problema sabe fazer brotar mar, ele também pode fazer brotar o amar.

2 weeks ago
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O amor é como pedras: não se encontram diamantes e pérolas. Tijolos, cascalhos e britas é tudo o que há.
3 weeks ago
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"Os olhos eram de fé."

portuaria:

Amendoados, doces, cheios da humildade que se via na pele marcada de sol. Maria nunca aprendera a ler, mas tinha poesia em sua boca. Os cabelos eram versos perfeitamente metrificados que me envolviam cheirando suor e lírios. Ah, como não amar Maria? Maria de mãos calejadas, de rugas precoces, de dores impossíveis de descrever.

Maria e seus olhos de fé.

3 weeks ago
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Respingos

Sequestros relâmpagos de si mesmo:
A Outra Face me encara,
Postura de ódio e desamor.

A Outra Face

Que se recusa a envelhecer,
Que não se sustenta ao encarar o corpo putrefato - 
este que não é nada além que corolário da deterioração da alma.

Contemplas a vida
e insistes em travestir teus comodismos 
com esperanças cafonas.

Não compreendes O Mundo,
Os outros
e julgas a miséria alheia
como se não fosses tu, miséria também.

Olhos enxertados de ambição sombria,
Selvagem
Em consonância com teorias bestiais sobre O Amor.

Que é O Amor, senhora D., senão derrelição?

Não, não me olhes com ternura.
Não ousarás hoje tecer filosofias sobre a beleza, o encanto. 
Não me mostrarás teus sonetos clássicos,
Não me falarás de Bilac.

Quero, por agora, estar em concordância com O Mundo
E é noite.

3 weeks ago
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D.,

Tava pensando aqui que talvez seja verdadeira aquela história sobre num deserto de almas também desertas uma alma especial reconhecer de imediato a outra. Acho que a minha vida inteira vai ser demarcada por esses tão raros “cinco minutos de coragem insana” que de repente se tornam maiores que a minha vontade de sentar no sofá e ver Cake Boss ou qualquer coisa assim.

Era uma noite dum frio grudento, que ia adentrando pelas frestas da coberta… Esse frio que assinala a imobilidade das coisas todas. E, talvez impulsionada pelo que alguém escreveu num muro perto de casa, decidi que queria fazer qualquer coisa com a minha vida. Qualquer coisa que roubasse de mim esse sentimento de ser mais máquina que humano.

E é engraçado como as coisas bonitas são sempre inesperadas. Como a gente se vê sempre surpreendido.

D., não esperava tudo aquilo. Não esperava muito. Não imaginava que ia gostar tanto-assim de você. E que, de todas as noites bonitas que passei do lado de um cara, essa tenha sido a mais bonita. Porque parecia poesia, “como uma história que alguém estivesse me contando”. Porque você é bonito e de uma maneira esquisita me perturbou, porque parece ser frágil.

E talvez, e desconfio muito disso, seja porque os pequenos pontinhos de felicidade que emergem dum universo de tristeza sejam mais genuínos que a felicidade absoluta.

1 month ago
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porto de navios naufragados

Meu coração feito porto de navios naufragados 
Agora eu sou um neanderthal fazendo pinturas rupestres no abandono
Um bicho escrevendo poemas para ninguém.

(Diego Moraes)

1 month ago
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Meus Deus, a vida é solidão, apesar de todos os opiáceos, apesar do falso brilho das “festas” alegres sem propósito algum, apesar dos falsos semblantes sorridentes que todos ostentamos. E quando você finalmente encontra uma pessoa com quem sente poder abrir a alma, pára chocada com as palavras pronunciadas – são tão ásperas, tão feias, tão desprovidas de significado e tão débeis, por terem ficado presas no pequeno quarto escuro dentro da gente durante tanto tempo. Sim, há alegria, realização e companheirismo – mas a solidão da alma, em sua autoconsciência medonha, é horrível e predominante.
Sylvia Plath 
1 month ago
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A tênue linha entre ser um trem de ferro e ter medo.

Quase 18, enfim. E uma completa sensação de pequenez.

Se você quiser mesmo saber, eu esperava um pouco mais.

(Esperava que a vida fosse mais do que esse ciclo eterno de recomeços, que o amor tivesse mais a ver com carinho do que com tolerância, que o vestibular fosse mais sobre ter se encontrado do que ter algo pra se vangloriar sobre.)

Esperava um pouco mais de mim.

(Não queria chegar aos quase 18 morrendo de medo das pessoas e percebendo que 70% das coisas no mundo, nesse meu mundo, são pura ilusão.)

Quase 18 e uma coleção de 4 vidas (porque mudar de cidade vai um pouco mais além do que os olhos podem ver) na mala, algumas certezas (cada vez mais dúbias), uns três livros favoritos e a certeza de que nada é permanente. Sim, o rio nunca é o mesmo. E não, os desertos nunca param de crescer.

Tenho vontade de gritar. De criar algo permanente, nem que seja em um frame. Tenho saudades de sonhar, sem essa pressão inconsciente do ter-que-realizar. ‘O mundo não é mais o meu’ e a minha insônia não cabe mais nas minhas madrugadas.

Quase dezoito e é hora de seguir em frente, de novo. Recomeçar. Pedir ajuda a quem quer que seja Deus e adentrar mais portões, e bater em mais portas, e seguir. E é difícil seguir, submergir exige força e desapego.

É difícil, meu menino, ser trem de ferro.

Mas a gente tem que tentar.

1 month ago
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Prevejo

Mas as palavras hão de volver, menina.
Torrenciais, esdrúxulas, diluvianas, 
Cataratas do Iguaçu refletidas em teus olhos vulgares.

O que é pélago nunca revêm a ser flúmen.
Os dias não hão de ser pra sempre bonança.

1 month ago
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Mas amar as coisas não é ser caso perdido, Ana.