2 days ago
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Decidi naquela semana que não veria ou leria os jornais. Queria tirar férias do mundo inteiro, calar um pouco a sinfonia errante dessa Terra-Babel. Mas embora minha recusa fosse sincera, percebi que era inevitável que algumas coisas me chegassem aos ouvidos. E deixei que fragmentos de vozes televisivas e avisos alarmados de meu pai fossem tecendo o que acontecia. E, naquela semana, foi sem maiores explicações que vi aviões se desfazendo no ar, transformando sonhos em chuvas de cinzas; conflitos incendiários matando aos montes em nome de um Deus que já não reconheço; presidentes sendo acusados por banqueiros de ruir a nação, o mundo.
Um amontoado de coisas imensas e confusas. Abarrotadas de sangue, morte, exagero. Carniça, sei bem. Há tempos que decidi achar que jornalistas nada mais são que urubus e naquele ínterim, naquele tempo-jejum, talvez por acaso, serviu-se paquidérmico banquete de tragédias putrefatas.
Já era Segunda-Feira quando decidi que era hora de abrir os jornais. E perdida entre tantas palavras e graciosas fotografias mutiladas, uma manchete em destaque me saltou aos olhos: “Um mundo de inevitáveis colisões”. Encantada pela promessa de delicadezas que exalava daquele título em destaque, decidi que a dieta terminaria por ali, pela tal manchete poética que brotava entre tantas outras, nesses tais tempos do cólera… Um clique rápido pra uma brusca queda. Esperava poesia, encontrei guerra. Centenas de mortes despudoradamente reveladas. De que lados estamos “Quando Golias É Judeu”?
E quando leio essas coisas, enxurradas de pensamentos anarquistas me invadem. Precisamos arrumar qualquer maneira de ser mais livres. Rearranjar as coisas de uma forma que ainda exista, ao menos, esperança.
Debaixo das cobertas, leio aflita sobre as centenas de mortes, a represa de sangue que promete romper as barreiras. Mas egoísta que sou, fecho as janelas e depois os olhos. Três segundos. Um tantinho de paz: fecho os olhos e me lembro de você dizendo - daquele jeito que você diz, fazendo toda palavra parecer beijo: a felicidade é um relâmpago.
Volto à Faixa de Gaza, tento me comover… Mas a luz que entra essas horas da manhã pela janela é tão bonita. Tão bonita. E o insistente fiapo de sol que parece descascar a escuridão do quarto frio me lembra você. No meio de tudo isso, desse caos desgraçado que permeia esse mundo escuro, eu correndo até a estante pra buscar meu livro esquisito do poeta que inventa palavras. “Eu não sei nada sobre as grandes coisas do mundo, mas sobre as pequenas eu sei menos”. Meu coração sorri e sinto o seu sorrir de volta. E é só então que te deixo ir. Feito um poema que escrevi certa vez pro meu pai que terminava bem assim: “Não sei dar abraços/ Toma minhas palavras”.
*
Um mundo de inevitáveis colisões, dizem os jornais. Eles falam sobre mísseis. Eu, sobre relâmpagos.
1 week ago
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My mother died when I was three. I don’t remember much about her. But I do remember, when she was very sick at the hospital, she said to me: ‘Never let a man steal your life.’
Humans Of New York
2 weeks ago
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como gotas

caindo no

oceano.

2 weeks ago
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Arabesco cotidiano (ou sobre como transformar conhecimento inútil em conversas-monólogos)

- Você sabe, eu sou babaca. Às vezes fico pensando como seriam essas pontes imaginárias que ligam as pessoas.

- Chegou a alguma conclusão dessa vez?

- Não. Mas acho que a nossa é uma mistura de Calatrava com aquela coisa que eu não sei pronunciar, mas é alguma coisa assim “Qingdao Haiwan Bridge”.

- Eu nunca entendo o que você quer dizer.

- Quis dizer que é bonito. E enorme.

2 weeks ago
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Avesso eu

Num plano ideal me reservaria o direito de ser moderadamente infeliz quase sempre. Levemente feliz nos dias bons.

Então no fim a vida se resumia a isso: aceitar a infelicidade como parte intrínseca de tudo. E ainda assim seguir. 

Tem uma coisa em mim que grita dia e noite o seu nome. 

Quem me entenderia? Uma dor tão vil, tão escrota, banal; dessas que a gente encontra em qualquer esquina. 

Mais medíocre que o Camaro Amarelo.

Se alguém um dia fosse escrever um poema pra mim, tenho certeza que ia começar assim: filinha de papai até nas crises existenciais. 

Nasci do jeito errado, mas se fosse outro já tinha se endireitado.

"Não tem amor, não tem valor, benzinho. Por aqui, sofrimento é status."

Sou Ismália antes de enlouquecer. Frida Kahlo numa versão sem talento. Sylvia Plath treze minutos antes de morrer. Caio Fernando com uma buceta. Pessoa sem a coragem. 

Não quero encostar minha solidão na de ninguém. Amor é bobagem, é pura bobagem, eu sei… 

Só queria alguma coisa que me levasse pra longe de mim. 

2 weeks ago
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Desalento

Que se foda o mar.
Não existem
Borboletas azuis
Em Minas Gerais.

2 weeks ago
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O mundo não é para os que têm dúvidas

- O que você acha que eu faço com quinhentos reais? Milagre?! - desligou sem dar tchau.

Tirou a coroa de flores - daquelas amarelas, que caem de árvores e pintam as calçadas no outono, marginais como tudo. Encarou a parede branca, puxada quase pro salmão. “Inócuas e brancas”, ela havia escrito, há muitos anos atrás, numa redação que a professora mais carrasca do colégio elogiou, “meu lugar é onde quer que existam possibilidades”. O monte de fotos, a raiva ao chutar as caixas espalhadas pelo caminho. Parecia mesmo deja vú. Clichês em francês me lembravam lugares que nem esse aqui.

Nem chorei.

Mas antes de ir fiz questão de jogar bom ar nas caixas. Você sabe, um pouco pra tirar o cheiro de mofo, um pouco pra afastar qualquer possibilidade de que esse cheiro desse as caras por lá, cheiro dessa cidade que nem é mesmo cidade, mas que parece mais um lugar de passagem, um posto da polícia federal no meio do rio, no meio do nada. Enfim.

Não sei o que nada disso quer dizer. De verdade, não. Só sei que preciso ir antes que seja tarde. Só sei que tarde às vezes é muito cedo. E eu já não sei. De quase nada. De muito pouco. E que as incertezas me descem guela abaixo, assim, que nem água gelada.

A coroa de flores se transformou, de repente, no prêmio pulitzer de jornalismo que eu nunca ia ganhar. O menino com olhos arregalados de fome olhava pro moço da pastelaria enquanto eu devorava meu segundo pastel de catupiry e azeitona preta. “Passa um pra ele também”. O que mais eu podia fazer por ele? Contar sua história? Pra quem, sério? Emocionar meia dúzia de burgueses burros que ficariam, então, mais preocupados com o rímel borrado?

Não era pra mim.

Mas aquela…. Aquela era a minha história. 

*

Eu estava apaixonada e ele era um bom rapaz.

Mas eu precisava ir, Suzete. 

Precisava ir, sabe lá pra onde.

2 weeks ago
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Tabatinga

Acordar cedo e ir ler Mário Quintana pra sua mãe enquanto ela dá água pros tomatinhos recém nascidos.

Analisar os espirais formados pelo rio.

Ver estrelas com o cara que você acha que vai te amar pra sempre depois de comer arepas.

Desistir de um suicídio por causa de borboletas azuis pousadas na grama.

Comer banana do pé na frente do sítio que o pai do seu melhor amigo comprou por dez mil reais.

No Alto Solimões,

quase tudo é ilusão.

2 weeks ago
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Gosto quando fica quente demais e o chão acha que pode brilhar nas fotografias.

Gosto de sentar na Paulistana e ficar observando a má etiqueta das pessoas ali e achar ao mesmo tempo inútil e engraçado o meu grau de “civilidade”.

Gosto de entrar no Sebo Maravilha e encontrar o livro que eu queria há muito tempo por dez reais.

Gosto de passar rápido pela Tubal Vilela e ficar vendo os velhos jogarem dama em plena segunda-feira, duas horas da tarde. Dá uma noção mais exata do tempo. Dá uma pena de seguir com pressa.

Gosto de estar carregando Hemingway na bolsa e de pensar em Villa-Lobos no meio da Afonso Pena.

Gosto de ficar imaginando, feito garotinha, o que acontece dentro do planetário, mas tenho vergonha de entrar sozinha.

Gosto dos azulejos de fora do banheiro e dos ambulantes que colorem o ponto de ônibus com cobertores (mesmo nesses dias de calor enfurecedor).

E quando ligam as fontes, eu volto a ter sete anos.

O cabeção ainda me assusta, é verdade.

2 weeks ago
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REPÚBLICA

Na cozinha,
Desconfie de toda comida de microondas que tenha um gosto bom.
Na vida,
Desconfie de todo mundo.


(Mas a verdade é que você inventa qualquer merda pra comer por causa da Coca que você esqueceu fechadinha na geladeira dois dias atrás. E também engole muito sapo e falta de educação em troca de um ambiente minimamente civilizado - migalhas de sentimentos?
A vida é uma merda. Mas se a comida estiver boa, ela melhora.
Só, por favor, não troque nunca jamais o canal da televisão que uma pessoa esteja porventura assistindo sem a expressa autorização dela. Nada machuca mais que isso.)

2 weeks ago
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(…)Então, viram swingers, num troca-troca incessante de parceiro. Morto fodendo morto. Nenhum senso de humor, nada de brincadeira no jogo deles – cadáver fodendo cadáver. As morais são restritivas, mas são fundadas na experiência humana através dos séculos. Certas morais servem para encarcerar as pessoas nas fábricas, igrejas e submetê-las ao Estado. Outras fazem sentido. É como um pomar repleto de frutos envenenados e bons frutos.
Charles Bukowski.